27 de abr de 2009

Texto 2

Sabe, pai, quando eu era criança vivia sem você, sem me dar por isso. Meu universo limitado e rico da infância oferecia todos os subsídios para ser feliz, sem me preocupar com sua ausência. Só hoje percebo o quanto dói não te ter tido. E, se falo assim de você, não é do ser que contribuiu com o diferenciador genético de sexo: falo de você, o ser humano que nunca existiu na minha vida; a outra metade da maçã; o ombro, o peito, o braço, o abraço que eu nunca senti; o castelo que nunca foi a fortaleza que eu sou, porque me falta esse alicerce do homem. Tenho mãe, que é um amor lindo e louco e maior que tudo e que transborda sempre, sem nunca ser demais, mesmo quando parece ser. E tenho avó: o amor descompromissado e sereno, como deve ser o amor dos anciãos: avó tranqüila e altiva, mesmo curvada nos seus mais de noventa anos de doce sabedoria. Elas me deram a afetividade e o desprendimento no ato de amar. Mas eu não tive a sua medida. Não conheci os limites e desembestei a sofrer, pois eu sentia mais do que devia. Transbordava, exauria, extenuava. Então, para não sofrer tanto, comecei a racionalizar todos os minutos da minha vida. Pretendi ser artista: pintor, desenhista, escritor, filósofo, alquimista, avatar... Tudo simulacros. De novo faltou a noção do limite, o saber ser grama pisada mil vezes por pés de gado. Estou agora essa coisa meio sem forma, sem gosto, sem cor. Não sou, não estou. Tinta velha descascando da parede; teia de aranha no canto do quarto fechado há anos; ferrugem comendo o portão caído na casa abandonada; esqueleto de folha devorada na terra: tudo instantâneos de mim. Filme projetado na minha cabeça, cada fotograma é uma imagem do que realmente sou, para me provar não ser único; para me mostrar perecível, composto orgânico supostamente pensante. Adubo. Conjunto de reações bioquímicas que dão forma à flor e nenhuma à lama. Transitoriedade. E o mundo não é o que eu penso, porque já me esquivo do pensamento. Meus olhos ardem, pai, e eu não tenho nada de meu que não a dor, o cansaço, a tristeza, e o meu permanente sorriso matinal para os dias que vêm. Já não tenho medo de qualquer coisa, só da morte, por ser o contrário de estar vivo. Por me lembrar uma agonia e uma dor maiores do que se pode suportar. E eu suporto mal a dor, pai. Mas não choro, e meus olhos ardem. Então faço chover ficticiamente, para que eu possa dormir eternamente envolto em cobertores.

Flávio Moreira
12AGO92

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