28 de abr de 2009

Alma Peregrina

Cai a tarde. Quente, abafada, úmida. Uma alma não mais tão jovem, por isso cansada, aguarda a chegada do reconfortante sono. Velada pelo esgotamento de mais um dia de lavores, ela agoniza no leito, com os olhos em chamas, quase clamando por algumas horas de merecido repouso. Entretanto o apelo incontido de suas pulsações internas não a deixa dormir.: todas as emoções desvairadas ebulem em seu coração e alteram o ritmo do universo ao redor. Prostrada, porém ainda lúcida, ela se deixa conduzir, combalida pelo fluxo intenso e flamejante das palavras que, por instantes, não lhe têm qualquer significado, a não serem traços vincados no papel. Da mesma forma, a agilidade descoordenada das mãos evoca um mar em fúria que não consegue manter a regularidade das ondas, mas que desenha harmonias na areia da praia. As palavras correm incontidas, inestancáveis como o sangue efusivo de uma jugular cortada. Há dentro desta alma delirante o sismo gigantesco das emoções profundas, onde grafismos e horas não se contam, apenas alfabetos se ordenam em idéias obscuras, e o tempo desenrola-se segundo seus próprios princípios. Não há compreensão integral de seu significado. A mesma sede que sentimos em conhecê-la mistura-se ao asco de beber em águas turvas a cristalinidade da criatura viva. Animal acuado em contínuo movimento na agonia da jaula. Fera esperando o olhar doce e seguro que a atravessaria com tranqüilidade e compreensão: uma face. Palhaço mil vezes rido e aplaudido nos picadeiros do mundo: outra face. Estrela pagã, indiferente a todos a quem impõe seu brilho. Ouro volatilizado, espargido sobre cabeças vazias, donas de peitos de pedra e corações de vidro. Sabem que não podem tocar seu corpo que guarda, no cerne, o fogo sagrado de sua própria vida, que partilhará com aqueles que, como ela, conhecem a noite e o deserto que carregam em si, mas que forjam no frio vazio de seu interior a pureza das cores derramadas nas galáxias da existência. Ela é uma alma peregrina, que caminha todos os dias o mesmo trajeto, por onde a paisagem nunca é a mesma. Sua caminhada sobre a insensatez a traz mais para perto do mundo, pois ela toca, acaricia, beija e apedreja e cospe em todos; e todos a tocam, acariciam, beijam apedrejam e cospem nela. Para todos ela é milhares e única. Para ela todos são o espelho onde ela vê o belo e o mal de si mesma. A eles é feito o convite para tocar seu corpo e é lançado o desafio e fazer com que ela aquiesça um carinho. Ela adormecerá, enfim saciada de tanta vivência, pois a poesia do dragão a liberta, e a liberdade expõe a ternura sob suas garras. Num momento que anuncia o alívio ela se transforma: seu frágil corpo cresce e avoluma-se e seu olhar é quente, brilhante e harmonizador. Tudo nela é um afago febril. A febre das palavras, que amaina com a chegada do deus-sono, e que cessa quando suas asas se fecham para que ela se refaça e suas energias sejam purificadas, para que amanhã ela ressurja das cinzas adormecidas. Para que seja ela o guia do carro do sol ao amanhecer...

Flávio Moreira
22NOV88
23:00h

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