27 de abr de 2009

Prelúdio e Fuga

"Mas eu nem sempre quero ser feliz
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para poder ser natural..."
(FP - Alberto Caeiro)

Talvez eu devesse estar alegre. Talvez. Não consigo ter certeza. É como se o mundo à minha volta fosse uma interrogação. Ando, como sempre, triste. É o meu jeito de ser eu mesmo. Vivo minha melancolia intensamente, como se esse fosse um jeito mais meu de ser feliz. Gostaria de poder dormir, mas existe sempre o mesmo diferente filme projetado diante dos meus olhos, estejam eles fechados ou abertos. É um filme sem histórias, sem enredo, roteiro, apenas a sucessão infinita de imagens, como comerciais curtos em velocidade rápida, "zappeadas" constantemente, saturando de forma subliminar meu raciocínio lógico. Por isso já não escrevo coerentemente: porque já não penso coerentemente. Meu pensamento é um olho de libélula voltado a todas as direções, uma metralhadora disparando contra os mosquitos gigantes que me assustam, zumbindo imagens passantes, filmes mínimos: avião passando, trem passando, carro passando, tempo passando, vida passando e eu atingindo a velocidade da luz. Minha massa entra em colapso sobre si mesma no horizonte de eventos, atingindo o orgasmo universal-primordial onde não sinto mais nada. Fico a adensar-me cada vez mais, fugindo do abismo pensando em qualquer lugar no momento relativo exato. Equação da vida enfim decifrada: a anti-vida. O morrer mil vezes ao infinito, perder-me vale, abismo, falésias e o mar dos sonhos batendo nas encostas da mente. O delírio triste e melancólico de minha doce alma arrebatada do corpo pela luz fria do luar, que é a luz quente do sol refletida na lua. Onde piso sozinho eternamente no chão do deserto que os homens chamam de mar... Tranqüilidade, ou algo assim. Algo que lembra paz absoluta, viver absoluto, morrer absoluto, um hibernar qualquer no colo de Deus. Esse pai que me lançou semente no ventre da terra-mãe, parideira de ancas largas e fartas tetas de loba. Nasci mirrado e seco como planta de caatinga, que já nasce morta e amarga. Mas amargura não era para mim. Era doce o que eu queria ser, porque era doce estar dentro da Deusa-Mãe, recebendo vida. Essa mesma vida que bebo hoje, tentando descobrir doçuras outras para embelezar minhas asas de anjo caído. Asas etéreas de anjo que deseja outros paraísos para existir em paz. Asas etéreas de anjo que deseja ser anjo etéreo, sem maldade, sem ser anjo dos homens. Anjo que ouve os trovões das tempestades solares. Anjo físico nuclear, astrofísico. Bestafísico. Anjo com delírio de gente, de humano triste, melancólico, bucólico. Delírio, que já foi deleite, mas que hoje só sonha. Grande Mãe, perdoa o filho lançado contra tua vontade em teu ventre, deleite de Deus. Vivo de consumir substâncias de estrelas mortas a milhões de anos. Minha vida, minha parca, mínima vida. Pequena e doce vida de menino triste, solitário, caminhante, delirante, adulada pela loucura. Porque só cresci assim por fora, corpo físico mesmo, amontoado de átomos, moléculas, células, órgãos, corpos, estrelas, galáxias... Um bicho de fome voraz. Fome de vida, fome de delicadeza em cada gesto, de suavidade em cada som, fome de gente viva. Um contador de histórias, mil e uma noites da mesma história de outros diferentes. Todos dançando a música dos sonhos de todos os compositores. Acordes únicos, ouvidos uma vez a cada nascimento do universo. E eu sou um ser que anda de ponta cabeça, para que meus pés pensem poder chegar onde meus olhos cegos o levam. Olhos da mente, que mente o que vê. E sonho o que penso, penso o que vejo e vejo meu delírio. Porque o delírio só existe se você estiver acordado: se estiver dormindo é sonho...


Flávio Moreira
25/01/94
1:50h

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