27 de abr de 2009

Reencontros

"O tempo: esta substância da qual somos feitos."
J.L. Borges


Escorre um fio de tempo morno sobre as ondulações do ventre quando eu, aqui deitado e coberto com o escuro do quarto, remeto-me aos idos anos dos primeiros encontros. Tenho a febre alucinante escaldando meu corpo, frêmito gozo prazeiroso de ver de novo, em um novo momento, repetidos momentos incertos, imprecisos nesta minha memória devaneante, sempre viajada de emoções indistintas, embora imiscíveis. Transpiro, respirando cansado e sôfrego, como quem fez amor ininterruptas horas e extenua-se sobre a nudez do corpo que lhe veste este momento. E é esse corpo de recordações novas em novas situações que me fazem delirar, num desejo incontido de exacerbar o momento único do gôzo de estar vivo e feliz, para que toda a ordem universal se refaça a partir do princípio divino do indizível amor que brota desde a minha alma inteira; atravessando a minha pele, a tua pele, a pele do outro; penetrando sempre e fundo a tua alma, a alma do outro, a alma-pele do mundo, de tudo aquilo que existe antes e depois do clímax do gôzo de Deus feito nosso gôzo no instante em que nos vemos. Sorvo, ávido, o inebriante olor do corpo suado do êxtase eterno de saber ser imortal esta ternura imensa que nos une. Meu corpo é uma primavera de acontecimentos e meu quarto não é mais um quarto, mas o imaterial espaço onde tudo nasce, cresce e a tudo fecunda. O sêmen de Deus banha minha vida e abre as portas de todas as sensações, as belas e as más, que podemos viver no período de uma eternidade, transformando sempre as coisas desde o início, no ciclo-cio dor-prazer-torpor-crescer-dor-nascer-viver-morrer-dor-prazer-torpor (ad infinitum). Infinitamente porque cada vez é a mesma, mas diferente. Cada vez é sempre, porém única. Me desvencilho da malha convencional do tempo, este mesmo tempo morno que escorre sensual sobre meu ventre molhado de prazer divino, quando eu, deitado no meu quarto, estou nú diante da vida que tenho e que quero, agora, partilhar contigo neste ápice do novo reencontro, que repetiremos sempre e sempre, porque assim nos cabe; e assim propagaremos toda a energia pulsando dentro de nós, para que tudo se destrua e se refaça no incêndio maravilhoso do momento em que nos amamos inteiros e verdadeiros. Resgatamos e devolvemos à vida todas as emoções colhidas nos milênios de vivências. Neste instante em que nos vemos-amamos, eu te entrego meu coração, que já não bate mais no meu peito porque já não cabe nele o amor que sinto.

Flávio Moreira
14OUT92
17:25h

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