30 de jun de 2018

Terry Eagleton falando sobre George Eliot

Quanto mais compreendemos a situação do outro, mais conseguimos compreender como se parece o mundo de seu ponto de vista; e quanto mais fazemos isso, menos provavelmente proferimos julgamentos externos, dogmáticos, sobre ele. Para George Eliot, esse sentimento de comunhão com o outro é a essência da moralidade. Romances podem colocar as coisas em contexto e, dessa forma, moderar nosso impulso de julgá-las de forma absoluta. Eles podem revelar histórias subterrâneas, ou padrões de força e causalidade, que fazem com que as aparentes ações egoístas ou maliciosas de homens e mulheres sejam mais compreensíveis. O papel da arte, escreve Eliot em seu ensaio ‘A História Natural da Vida Alemã’, é aprofundar as afinidades humanas, ‘ampliando nossa experiência e estendendo nosso contato com nossos companheiros de humanidade além dos limites da nossa condição pessoal’. Escrever e ler são, então, atos implicitamente políticos, que geram solidariedade social. A ficção desperta homens e mulheres para ‘essa atenção ao que está afastado deles... que pode ser chamado de matéria prima do sentimento moral’. O romance, em outras palavras, é um antídoto para o egoísmo — não apenas pelo que diz, mas pelo que faz, pela sua forma, tanto quanto pelo seu conteúdo.
[Tradução minha]

Texto original:
The more you understand the truth of another’s situation, the more you can grasp how the world seems from their standpoint; and the more you do this, the less likely you are to pass external, dogmatic judgements on them. For George Eliot, this fellow-feeling is the very essence of morality. Novels can put things in context, and thus temper our impulse to judge them too absolutely. They can reveal buried histories, or hidden patterns of force and causality, which make the apparently vicious or selfish actions of men and women more intelligible. The role of art, Eliot writes in her essay ‘The Natural History of German Life’, is to deepen human sympathies, ‘amplifying our experience and extending our contact with our fellow-men beyond the bounds of our personal lot’. Writing and reading, then, are implicitly political acts, breeding social solidarity. Fiction stirs men and women into ‘that attention to what is apart from themselves …which may be called the raw material of moral sentiment’. The novel, on other words, is an antidote to egoism — not just in what it says but in what it does, in its form as much as in its content.

Fonte: “George Eliot.” The English Novel: an Introduction, by Terry EAGLETON, 1st ed., Blackwell, 2005, pp. 164–165.

18 de ago de 2011

Dois haikais esquecidos

Escritos no dia  1 de fevereiro de 2011, ficaram esquecidos no celular.
I
Verão, sol a pino
Iridescência do corpo
Miragem ou sonho?

II
Estação de trem
Na plataforma, sozinha
Minha alma espera

27 de mar de 2010

Sobre o Diálogo

O diálogo pede solidariedade silenciosa a seus participantes, num acordo tácito em que um concorda em calar-se para que a voz do outro se manifeste. E nessa intercalação de silêncios de um e de outro vai-se construindo a troca, não só daquilo que é dito, mas também daquilo que permanece quieto, mas não oculto: o respeito, a atenção, e, principalmente, a reflexão.


Extraído de carta a uma amiga, com quem a conversa é sempre um ato de solidariedade.

7 de fev de 2010

Tijolos (muro à deriva)

(da série de textos perdidos)

Quando passamos do ponto
(Nunca sabemos quando)
Não sabemos do tempo que vivemos
Como quem viveu sem o saber
Desconhecemos o que em nós era conhecido
Em sua cotidiana presença
Banalizando em nós o ato contínuo de existir
Coisas doloridas comprimindo a razão
E devaneio lasso no lapso do momento
Instantâneo desfocado do instante em que insisto
Escapada às cegas no nevoeiro das palavras
Nebulosas distantes de idéias
Vago, fogo-fátuo, vácuo, vórtice infinito
Susto! Pânico súbito diante da emoção
Suspeita, culpada, vadia, perdida
Quase instalada, à espera, à espreita
Mirando no alvo de minha veia indefesa
Delírio, febre, lava subindo o esôfago
Ânsia, , água, nojo, alívio, vazio, oco
Nada
Eu.

(09/05/1992, escrito no ônibus, indo de São Paulo para o Rio de Janeiro)

Abandono

(da série de textos perdidos)

Todos os dias, sentado, parado, calado
Espero o abraço, a chegada de alguém.
Cansado, ainda calado, me esquivo do soco.
Amarrado, enforcado, a resposta largada...
Pés e mãos atados diante dos fatos.
Observador, sou observado, perscrutado, analisado...
Ave louca, na grade da prisão, me debato.
Preso, não canto!
Solto, fazem alvo de meu coração.
Penugem dourada, feneço, esqueço os martírios
- Inesquecíveis algozes.
Matéria pesada, ferida, inerte, atirada ao chão,
Não consegue se erguer.
Pisoteada, marcada, cuspida - tenho asas partidas
E a voz travada na garganta
- Canora ave que não canta.
E esplendor do vôo, o ouro das asas
Me foram roubados;
O doce da voz o fel dos homens amargou.
Corpo ferido, peito silenciado, coração lacerado...
O que me resta?
Não sei...
A primavera chegou e só o espírito paira, agora,
Sobre o que já fui um dia.
Apenas com ele vôo, apenas ele existe.
A matéria, a caixa, essa jaz destruída, abandonada...
O corpo aniquilado repousa, imolação feita de chamas
Para que, talvez, das cinzas, surja o corpo novo do novo ser.
A busca (inútil?) de um significado para essa existência...
Durmo em paz,
       enfim.

(18/10/1988, 17:21)

25 de jan de 2010

Imagem Virtual

(da série de textos perdidos)

Passeando os olhos pelos jardins, descobri que ainda não saí de dentro do espelho. Ter uma janela aberta e uma visão virtual de uma realidade impalpável... que grande mistério. Quem não acreditar em contos de fadas não poderá entender, jamais, "As Aventuras de Alice Através do Espelho". Minha realidade é um outro mundo. Mas não posso provar a todos sua existência. É preciso crer tanto na imaginação quanto na realidade invisível.

Sou um mago passeando pelos jardins dentro do espelho com a minha janela aberta. Assim consigo fazer com que as pessoas, para me entenderem, atravessem o espelho e enxerguem através da minha janela. Poucas conseguiram.

Não sou tão humano para ser comum. A minha imagem é virtual.

(26/10/1986 - 17:35)

Escrito numa época em que pouco se falava em realidade virtual. A virtualidade era, de fato, aquela da imagem que se formava no espelho, um conceito explicado nas aulas de física e do qual já não me lembro dos detalhes - algo como a imagem não se formar na superfície do espelho, mas em um ponto posterior, inexistente na realidade, uma coisa assim. Fica a curiosidade. E a voz de um eu lírico extremamente presunçoso (rs).

De paredes e biscoitos

Viajando no espelho
Abri minha janela
E as borboletas de primavera,
Em migração, me levaram a viajar
Pelo interior do mundo
E me descobri escrevendo em paredes
E comendo biscoitos.

(25/10/1986 - 20h00)

Anulação

E, de repente, não mais que engano
- Um mal-entendido -
Palavras mal colocadas,
Apreensão dos erros cometidos.
Jogo de agressões
Mágoas... mágoas...
Verbalização tresloucada
E sem sentido. Portas cerradas.
A desistência, desinência
Da auto-anulação.
A carência e a solidão e,
De sobra, pro resto,
A dor sinonimando
A auto-flagelação.

(19-20/11/1984)

O Poeta

(da série de textos perdidos)

Numa tarde comum, de um dia comum, saiu por aí o poeta em sua caminhada sem rumo.
Era um poeta comum, de mochila nas costas, idéias de monte na cabeça, pouco dinheiro no bolso, blue jeans, tênis, camiseta, cantarolando qualquer coisa para distrair.

Pegava ônibus, era operário, camponês, otário, mascate e aprendiz de qualquer coisa. É, era um poeta comum. Escrevia o que queria, onde queria; o que sentia, onde sentia. Amava. Era um alguém, um algo assim.

Andava e dançava e corria. Sorria para os outros, mas ninguém entendia. "É um louco", alguém dizia. Não, não era. O poeta amava, brilhava, o poeta brilhava... e como ninguém. Sentava e escrevia, o que desse, o que viesse.

E se descobria e se amava e se facetava. Sim, tinha muitas faces. Era um poeta! Era do mato, mas falava da cidade; era da água, mas bebia vinho; era do broto, mas comia lata; era do fogo e não se embrasava; mas era forte, e resistia.

Brigava mundos por sua palavra. Amava fundo com sua energia. Amava o campo, o mato e a pedra; a água e o vinho; o fogo e a brasa; a flor e o veneno. Era o poeta que se revelava.

Ele era um pássaro em seu vôo pleno. Livre, ninguém o tocava, nada o prendia. Ficava, se queria. Geralmente, partia. Mas deixava sua marca onde passava. Ficava escrita, gravada, talhada na mente das pessoas sua imagem.

Era leve o poeta, flutuava...

Era amigo, mas ninguém o queria. Poucos o amavam, mas amavam. Menos o entendiam, mas quem entende os poetas? Ele se entendia. Se buscava e se perdia; e se achava. Não era bonito, nem feio. Existia.

Estava e não estava, vivia e não vivia. Caminhava. meu Deus, como o poeta andava! Corria léguas e léguas de humanidade. Colhia flores nas pedras de cada coração que achava.

O poeta escrevia e se perdia nas palavras. Erea o poeta uma fantasia.

Hoje ele está sentado em um banco de praça e ninguém sabe seu próximo passo. Para quem olha o mar e entende as ondas, não há caminhos intransitáveis e nem barreiras intransponíveis. Por isso ele hoje está sentado em um banco de praça. Amanhã ninguém saberá dizer onde ele está.

Talvez fique ali mais um tempo; talvez ele logo se vá. Ninguém conhece seu destino, só ele.

O poeta transcende sua própria existência.

(04/11/1984)

20 de jan de 2010

Se eu pudesse voar (ou "a primeira tentativa de escrever um poema")

(podem gargalhar; além de permitido, o textinho merece: aos 15 anos, com essa bobagem, ganhei na escola o apelido de "homem-pássaro" - como eu nunca liguei para o apelido, não pegou.)

Se eu pudesse voar,
Sem nenhum aparelho,
Voar sem asas,
Voar somente por voar,
Voaria pelo mundo,
Voando sem parar.
Voaria até o mais alto monte da terra
Voaria por cima do mar
Voaria por cima da guerra
Voaria por cima da paz
Voaria além do horizonte
Voaria por cima do cais
Ah! se eu pudesse voar
Voar pelo mundo todo
Voar por cima do lodo
Voar só por voar
Mas se eu pudesse voar
Não gostaria de voar sozinho
Voaria com quem sabe amar
Para não perder meu caminho
(20/05/1980)