28 de abr de 2009

Dissolução

Ansiava uma palavra. Lia poemas, há pouco. Quis falar e calei. Agora, tentativa de palavras (minha comunicação verbal ressente-se da falta de aprimoramento). Experimento o cigarro, na falta do meu cachimbo: sinto-me nauseado com o odor desagradável e o gosto amargo, mas insisto. Neste instante retiro-me do meu corpo e me observo nesta cena: sentado à soleira da porta, com o cigarro na mão; a noite é fria e estrelada. Tenho o olhar vago, os pés descalços. Sopro os pensamentos com a fumaça... Caligrafia arrastada, emaranhada. Não importa, não quero estéticas físicas perfeitas agora. Estou cansado. E triste. E também me dói a cabeça. Estou velho... Sinto-me caindo aos poucos, à beira da estrada. Estou perdendo o romantismo. Quero solidificar a calcariedade do meu coração. Quero pedra pesando no peito, até que mais nada eu perceba dentro de mim, a não ser uma massa sólida, úmida, maciça. Mas sou tolo e sei que não posso, pois decidi sentir tudo intensa e irracionalmente; e sei que devo assumir todas as responsabilidades decorrentes da decisão de sentir. Ainda assim vou continuar tentando anular essa capacidade até ser completamente vencido pelas possibilidades do sentir: profunda e intensamente, como aquele que se atira ao abismo pelo deleite fugaz da queda e o prazer efêmero do choque, sem grito; ou sentir muito e longamente, como o viajante sem rumo, percorrendo rios, mares, céus, espaços, vales planícies e montanhas, em um nomadismo infindável por portos sempre provisórios. Mas eis que me encontro romântico de novo, embriagado com palavras que arrastam emoções pastosas em cusparadas longas, tisicamente febris. Definho aos poucos na soleira da porta e me deixo enganar pela ilusão de minha própria imagem de cavaleiro em armadura luzidia que empunha espada flamejante: ele/eu estende sua mão salvadora e terna e eu/ele antecipo num menear de cabeça o prazer do afago. Mas eis que se evapora a imagem: minha realidade não me fornece carícias para hoje. A noite é fria e longa e a dor aguda nos flancos da mente me recorda a banal necessidade de repouso. Mas o que é o descanso? Fechar os olhos e esquecer a existência, talvez... Não haverá descanso para mim, nem esta noite, nem nas que virão. Nem mesmo na morte, pois ainda há que se sentir dores, trilhar caminhos, retirar véus... Muito ainda hei de vagar, por existências longas e tardias (tantas estradas, tantas escolhas). Então, perto do fim, caminharei até tombar, completamente existido, à margem de um lago de vivências. Ali, debruçado, revolverei com a ponta dos dedos a lama dos sentidos, sem quaisquer emoções bruscas. Sei o lodo da pedra por que o sentirei cobrindo meu corpo, que pouco a pouco ficará inerte, entregue ao orvalho da relva. Esta é a única e última sensação que possuirei, até que o musgo cobrirá minha boca, calando-me para sempre, e meus olhos escorrerão nenúfares na superfície da água. Assim, no lugar onde um dia existiu meu corpo, haverá apenas musgo, pedra e relva. E não haverá qualquer memória do que fui que permaneça, porque terei me dissolvido na poeira do tempo.

Flávio Moreira
15MAI89
21:30h

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