7 de fev de 2010

Tijolos (muro à deriva)

(da série de textos perdidos)

Quando passamos do ponto
(Nunca sabemos quando)
Não sabemos do tempo que vivemos
Como quem viveu sem o saber
Desconhecemos o que em nós era conhecido
Em sua cotidiana presença
Banalizando em nós o ato contínuo de existir
Coisas doloridas comprimindo a razão
E devaneio lasso no lapso do momento
Instantâneo desfocado do instante em que insisto
Escapada às cegas no nevoeiro das palavras
Nebulosas distantes de idéias
Vago, fogo-fátuo, vácuo, vórtice infinito
Susto! Pânico súbito diante da emoção
Suspeita, culpada, vadia, perdida
Quase instalada, à espera, à espreita
Mirando no alvo de minha veia indefesa
Delírio, febre, lava subindo o esôfago
Ânsia, , água, nojo, alívio, vazio, oco
Nada
Eu.

(09/05/1992, escrito no ônibus, indo de São Paulo para o Rio de Janeiro)

Abandono

(da série de textos perdidos)

Todos os dias, sentado, parado, calado
Espero o abraço, a chegada de alguém.
Cansado, ainda calado, me esquivo do soco.
Amarrado, enforcado, a resposta largada...
Pés e mãos atados diante dos fatos.
Observador, sou observado, perscrutado, analisado...
Ave louca, na grade da prisão, me debato.
Preso, não canto!
Solto, fazem alvo de meu coração.
Penugem dourada, feneço, esqueço os martírios
- Inesquecíveis algozes.
Matéria pesada, ferida, inerte, atirada ao chão,
Não consegue se erguer.
Pisoteada, marcada, cuspida - tenho asas partidas
E a voz travada na garganta
- Canora ave que não canta.
E esplendor do vôo, o ouro das asas
Me foram roubados;
O doce da voz o fel dos homens amargou.
Corpo ferido, peito silenciado, coração lacerado...
O que me resta?
Não sei...
A primavera chegou e só o espírito paira, agora,
Sobre o que já fui um dia.
Apenas com ele vôo, apenas ele existe.
A matéria, a caixa, essa jaz destruída, abandonada...
O corpo aniquilado repousa, imolação feita de chamas
Para que, talvez, das cinzas, surja o corpo novo do novo ser.
A busca (inútil?) de um significado para essa existência...
Durmo em paz,
       enfim.

(18/10/1988, 17:21)