27 de abr de 2009

O Mal, o Belo e o Poder

Não é o mal em mim o que mais me desgasta e trucida. É o amargo do viver cada dia lutando contra monstros quixotescos que me põe cada vez mais longe da tranqüilidade de que preciso. Extenuo, a mim e a outrem. Tenho raiva de não poder ser campesino, placidamente observando campos verdes e não tendo por contendores mais do que as intempéries da grande Mãe. Quero os ritos simples de culto à harmonia, ao belo, ao natural, ao divino em cada um de nós, caminhantes cegos, perdidos, humanas máquinas desorientadas. Não há um caminho único. Não há certezas absolutas (hoje sei que nem mesmo a da morte). Não há verdades perfeitas (o que pode ser tomado como exemplo do perfeito?). Sei do mal da humanidade, que é o meu próprio, mas também sei do seu belo. Creio na doçura possível atrás de cada punhalada diária. Entendo minha limitação de não ser limitado e de poder escolher, e de poder escolher errado ou certo, sem estar muito seguro do que cabe nestes conceitos. Posso amar, ou não; posso ser amado sem poder proibir que os outros me amem, mas posso não me permitir receber o amor. Posso muitas coisas e isto, acredite, é mais limitante do que estar preso entre quatro paredes. Porque posso ser livre entre quatro paredes enquanto for possível enxergar, ouvir, sentir cheiros e gostos, enquanto for possível pensar. Enquanto puder . . . e o poder tantas coisas assusta, corrompe, emburrece. E isto é sábio, porque é possível. Porque eu existo na sua imaginação; porque você me vê, me ouve e, quando eu permito, até me toca. E você está presente na minha imaginação, porque eu, em minha egoísta e pretensiosa omnisciência, deixo que você exista ali. Mas tudo é só uma face, uma nuance de cor, uma variação de padrão. Enquanto eu falo pelo meu pensamento você está fazendo outras coisas, falando outras palavras, pensando outras idéias e enlouquecendo tanto quanto eu, mas do seu jeito. Você está amando, se deixando ou não ser amado, vendo, sentindo cheiros e gostos, ouvindo, tocando. Só que do seu jeito. Em todas estas ações você é igual a mim e, por esta semelhança, eu te amo. Em todas estas ações você é diferente de mim e, por esta diferença, eu te amo. E eu também acredito que estou, neste momento, tocando em você, porque você me toca e eu sinto o mal e o belo de você em mim. E você sente o mal e o belo de mim em você. Então não é o mal em mim que me desgasta e trucida: é o não sentirmos o belo em nós mutuamente e a todo instante que me afasta da tranqüilidade que preciso. Para recuperar a lucidez . . . ou para perdê-la de vez.

Flávio Moreira
07/01/94
19:17h

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