28 de abr de 2009

Noturno (inversão)

Ao entardecer, vivi todos os tormentos, presságios, agouros...
Ilusões formadas no seio da noite tomaram de assalto minha mente.
Na proximidade do ocaso, fui passageiro em suas asas:
Vi todas as luzes da cidade, constantes ou não.
E dentro delas os homens, as mulheres, a humanidade inteira...
Deslizei displicente em todas as camas e recantos brumosos
Onde mãos exploravam corpos e segredos eram revelados.
A cada instante novo brilho surgia e com ele nova realidade;
E eu alheio a toda realidade...
Até o ápice da lua, horas intermináveis de devaneios.
Entorpecido com tantas imagens, adormeci.
Tive todos os sonhos, bons ou maus, providos pelo cansaço;
Pesado, afundei o corpo na realidade inverossímil do meu catre,
E deixei vagar o espírito por entre mundos inimagináveis.
E todas as viagens que fiz,
E todos os lugares que conheci,
E todas as coisas que palavras não descrevem —
Maravilhosa ilusão do viver!
Aninhado, coberto, aquecido, saciado, despertei.
Então o desmoronar das ilusões me foi menos doloroso.
Ao amanhecer, permiti a limpeza da matéria:
Lavei a essência, perfumei a alma, purifiquei o corpo
E me ofereci inteiro às primeiras cores da manhã.
Acariciado pelo vento, sedento de orvalho, inebriado pelos odores da aurora,
Fui exposto à toda exuberância da natureza.
Arrepiei a pele aos primeiros raios de sol, antevendo a eclosão do gozo.
E me expandi, matéria e essência, por todo o Universo...
Assim, existindo desnudo, imemorial e mutante,
Sou reflexo cristalino da ansiedade do mundo
E, por isso, o assombro.

Flávio Moreira
09/11/1988

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