27 de abr de 2009

Negações

O mundo não é mais o mundo que eu conheci. O nada essencial deixou de existir. Vivemos tudo e não conseguimos entender o volume que esse tudo representa. Sufocamos. Corremos o risco de morrer de overdose: de informação, de angústia, de abandono, de desolação, de incompreensão, de desamor, de amor, de tesão, de vontade, de emoção, de racionalidade. É como se tivessem apertado o botão de avanço rápido da nossa vida e não tivéssemos mais tempo para viver. Passamos, e rapidamente, pela nossa história, que toca de leve a história de outros. Movem-se as coisas mais rápido do que podemos acompanhar. Nosso arquivo de subliminaridades pode não suportar tanto. Não vemos, não sentimos, não falamos, não tocamos, não amamos, não odiamos, não fazemos nada com tempo suficiente para compreendermos nossa própria transitoriedade dentro dos acontecimentos. Fomos atirados no vórtex do inexorável em nossas vidas, sem ter tempo para amar e viver o amor, para que ele nos dê prazer; sem tempo de odiar e entender as motivações do ódio. Não questionamos. Mergulhamos em vinte horas de trabalho diárias, nas mais diversas atividades, porque não podemos nos dar tempo para pensar nosso papel na vida do outro, já que não tomamos conhecimento do que é a nossa própria vida. Não pensamos; não verbalizamos. Gaguejamos. esquecemos as palavras que mais usávamos no tempo dos diálogos, quando, além de palavras, trocávamos vivências, emoções, idéias, vida. Ficamos parvos diante do grandioso que criamos e não entendemos a utilidade do que foi criado. Perdemos a capacidade de expressar até mesmo as nossas mais simples idéias, nossos mais perfeitos sentimentos. Nos envergonhamos das declarações despudoradamente limpas das nossas emoções mais básicas. Estou cansado de deuses. Sempre inatingíveis, impassíveis, megalômanos, voltados única e exclusivamente para sua própria ilusão de felicidade narcisa. Não peço nada a ninguém, porque estou tão mergulhado nisso quanto qualquer um. E sei que à minha revolta, quase pueril, não será dada qualquer importância, nem mesmo a mínima que ela mereça. Não há do que nos envergonharmos. Afinal de contas somos todos muito sujos mesmo, num momento ou outro de nossas vidas (quando não, em todos os momentos dela). Sei que estou sendo excessivamente sentimental, primário, básico mesmo. Mas é que emoção intelectualizada é foda de suportar, meu caro. E eu já estou muito machucado para ter que ficar me justificando a toda hora pelas minhas crises de humanidade. Só queria poder te tocar um pouco, sentir o calor da pele do teu rosto, assim, sem nenhuma intenção que não a do carinho por si mesmo. Mas tudo tem um preço, não é? E quem não quiser pagar está fora do jogo, é certo. Mas não ligue para o que eu falo. Não é por maldade, nem por raiva de ninguém. Não guardo rancor das gentes. Eu só queria poder estar assim próximo, como no tempo dos diálogos, trocando essa emoção, esse carinho que não está pedindo nada em troca, a não ser um pouco do que ele mesmo é. Não ligue para a minha tristeza. Ela passa, como todas as coisas. Isso tudo só aconteceu porque alguém esbarrou por acidente no botão de 'pause" e eu não pude continuar correndo sempre no mesmo lugar. Mas a roda-viva não pára e eu já estou indo de novo no fluxo veloz de todas as coisas. Talvez você esqueça de tudo isso no próximo segundo, quando entrar também na roda-viva. Não se preocupe: eu só espero ainda ter tempo de plantar uma flor no jardim da minha casa antes de tudo rodar de novo.

Flávio Moreira
17/05/93
19:30

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