28 de abr. de 2009

Dissolução

Ansiava uma palavra. Lia poemas, há pouco. Quis falar e calei. Agora, tentativa de palavras (minha comunicação verbal ressente-se da falta de aprimoramento). Experimento o cigarro, na falta do meu cachimbo: sinto-me nauseado com o odor desagradável e o gosto amargo, mas insisto. Neste instante retiro-me do meu corpo e me observo nesta cena: sentado à soleira da porta, com o cigarro na mão; a noite é fria e estrelada. Tenho o olhar vago, os pés descalços. Sopro os pensamentos com a fumaça... Caligrafia arrastada, emaranhada. Não importa, não quero estéticas físicas perfeitas agora. Estou cansado. E triste. E também me dói a cabeça. Estou velho... Sinto-me caindo aos poucos, à beira da estrada. Estou perdendo o romantismo. Quero solidificar a calcariedade do meu coração. Quero pedra pesando no peito, até que mais nada eu perceba dentro de mim, a não ser uma massa sólida, úmida, maciça. Mas sou tolo e sei que não posso, pois decidi sentir tudo intensa e irracionalmente; e sei que devo assumir todas as responsabilidades decorrentes da decisão de sentir. Ainda assim vou continuar tentando anular essa capacidade até ser completamente vencido pelas possibilidades do sentir: profunda e intensamente, como aquele que se atira ao abismo pelo deleite fugaz da queda e o prazer efêmero do choque, sem grito; ou sentir muito e longamente, como o viajante sem rumo, percorrendo rios, mares, céus, espaços, vales planícies e montanhas, em um nomadismo infindável por portos sempre provisórios. Mas eis que me encontro romântico de novo, embriagado com palavras que arrastam emoções pastosas em cusparadas longas, tisicamente febris. Definho aos poucos na soleira da porta e me deixo enganar pela ilusão de minha própria imagem de cavaleiro em armadura luzidia que empunha espada flamejante: ele/eu estende sua mão salvadora e terna e eu/ele antecipo num menear de cabeça o prazer do afago. Mas eis que se evapora a imagem: minha realidade não me fornece carícias para hoje. A noite é fria e longa e a dor aguda nos flancos da mente me recorda a banal necessidade de repouso. Mas o que é o descanso? Fechar os olhos e esquecer a existência, talvez... Não haverá descanso para mim, nem esta noite, nem nas que virão. Nem mesmo na morte, pois ainda há que se sentir dores, trilhar caminhos, retirar véus... Muito ainda hei de vagar, por existências longas e tardias (tantas estradas, tantas escolhas). Então, perto do fim, caminharei até tombar, completamente existido, à margem de um lago de vivências. Ali, debruçado, revolverei com a ponta dos dedos a lama dos sentidos, sem quaisquer emoções bruscas. Sei o lodo da pedra por que o sentirei cobrindo meu corpo, que pouco a pouco ficará inerte, entregue ao orvalho da relva. Esta é a única e última sensação que possuirei, até que o musgo cobrirá minha boca, calando-me para sempre, e meus olhos escorrerão nenúfares na superfície da água. Assim, no lugar onde um dia existiu meu corpo, haverá apenas musgo, pedra e relva. E não haverá qualquer memória do que fui que permaneça, porque terei me dissolvido na poeira do tempo.

Flávio Moreira
15MAI89
21:30h

Feliz Ano Novo

Não é depois do chope que me sinto mal. Afinal, o resíduo deste duvidoso prazer é apenas um líquido amarelado, semi-viscoso e quente, carregado de sais e impurezas que, quando expelido, leva consigo todos os nossos humores e angústias, levados por esse caminho comum por onde passam todos os detalhes indefectíveis de uma existência miserável: o esgoto. É esse ponto final que torna a todos nós iguais e é essa igualdade que faz com que eu não me sinta mal depois do chope. É antes dele que vem a tristeza, o mal estar, a garganta seca, a vertigem e o gosto amargo na boca. Antes do chope é estar sozinho e triste. Depois do chope é estar sozinho, triste e eufórico, o que, no fundo, não alivia nada.

Flávio Moreira
08DEZ90

Fênix sem Chamas

O pássaro acredita na possibilidade do vôo
Até a queda.
Para o pássaro nada existe a não ser a felicidade do vôo
Até o momento da queda
Tudo depois dele é desconhecido, atraente, temido
Todo desconhecido é, para o pássaro, inexplorável
Pois está além da queda
Entretanto ele sabe, o pássaro, do inexorável na queda
Ele é consciente do inadiável
O objetivo do pássaro é a queda – a barreira a ser vencida
Atravessar a barreira é mergulhar na queda
— A queda como recurso único de libertação —
Então atravessar a barreira é apenas parte do objetivo
O tiro – que provoca a queda – é o anjo da anunciação
E o pássaro cai rumo ao seu destino: a morte
O objetivo é vencer a morte do único modo possível:
Morrendo
Morrer é descobrir que as barreiras não cessam – nunca

Flávio Moreira
08/11/1990

Texto 1

Tempo nublado nos meus olhos que ardem, mar desertificado na ausência de consangüinidade com os dias. Fui exaurido na busca eterna de coisas místicas, confundindo mitos e lendas com a realidade, muitas vezes insuportável, dos meus ainda poucos anos vividos. Exaspera-me não ter como mensurar exatamente em que ponto da vida estou: sou jovem ainda para ter alcançado imaterialidades tais como sabedoria e calma diante da vida (penso: "é preciso ter sofrido muito e sobrevivido a tudo com um mínimo de sanidade"); entretanto já sou muito velho para outros comportamentos pouco condizentes com a minha condição de jovem já envelhecendo. Desespero-me diante das dificuldades mínimas da vida e dos meus medos adolescentes subitamente renascidos. À medida que envelheço descubro meus distúrbios da puberdade e pondero se realmente deixamos de ser adolescentes diante do dia a dia e das experiências. Sinto-me antigo como um grão de areia agregado à rocha; como a primeira partícula de poeira surgida no Big Bang. Minhas idéias andam em sentido oposto ao do meu corpo. Sou um guardador de tesouros antigos, que já não interessam mais a ninguém. Não há mais quem queira saber o que há guardado entre as milenares juntas doloridas de meus ossos. Por isso me sufoco na poeira secular dos meus alfarrábios, todos escritos no antigo idioma da afetividade humana, quando não existiam as variantes distorcidas por religiosidades torpes, belicosidades sócio-políticas ou excrescências filosóficas mal digeridas no passar dos séculos. Era tudo simples no instante em que vejo, em meio a essa atmosfera Pessoana, sentindo ânsia pela vida como se fosse morrer neste próximo segundo. Desoriento-me. Não há bússolas, astrolábios, mapas, nada que me guie. Não tenho norte porque desaprendi a ler estrelas e meu eremitério é, hoje, fraca fortaleza urbana, de onde não consigo mais vislumbrar o conhecimento, a não ser para mascateá-lo em nome da sobrevivência. Tenho uma tristeza cansada, que não é infelicidade, de quem tenta ser feliz todos os dias com otimismo, mas que acaba sendo vencido pelo rosto marcado no espelho ao fim do dia, e que se contenta com o calor do próprio corpo repetido no colchão. Tempo nublado nos meus olhos que ardem, não por chorar, pois desaprendi a arte do extravasamento das emoções. É meu corpo que paga pelas agruras do dia a dia e pelo meu revoltante silêncio. Meus olhos ardem porque já não podem mais contemplar o mundo em sua plenitude; por não mais olhar no olhar do outro, pois ambos não nos permitimos, animais acuados diante do desejo de serem plenos, mas com medo. Então me pergunto se ainda poderei transformar este desejo em energia prometéica que nos conduza novamente ao Avalon de nossa plenitude.

Flávio Moreira
12AGO92

27 de abr. de 2009

Texto 2

Sabe, pai, quando eu era criança vivia sem você, sem me dar por isso. Meu universo limitado e rico da infância oferecia todos os subsídios para ser feliz, sem me preocupar com sua ausência. Só hoje percebo o quanto dói não te ter tido. E, se falo assim de você, não é do ser que contribuiu com o diferenciador genético de sexo: falo de você, o ser humano que nunca existiu na minha vida; a outra metade da maçã; o ombro, o peito, o braço, o abraço que eu nunca senti; o castelo que nunca foi a fortaleza que eu sou, porque me falta esse alicerce do homem. Tenho mãe, que é um amor lindo e louco e maior que tudo e que transborda sempre, sem nunca ser demais, mesmo quando parece ser. E tenho avó: o amor descompromissado e sereno, como deve ser o amor dos anciãos: avó tranqüila e altiva, mesmo curvada nos seus mais de noventa anos de doce sabedoria. Elas me deram a afetividade e o desprendimento no ato de amar. Mas eu não tive a sua medida. Não conheci os limites e desembestei a sofrer, pois eu sentia mais do que devia. Transbordava, exauria, extenuava. Então, para não sofrer tanto, comecei a racionalizar todos os minutos da minha vida. Pretendi ser artista: pintor, desenhista, escritor, filósofo, alquimista, avatar... Tudo simulacros. De novo faltou a noção do limite, o saber ser grama pisada mil vezes por pés de gado. Estou agora essa coisa meio sem forma, sem gosto, sem cor. Não sou, não estou. Tinta velha descascando da parede; teia de aranha no canto do quarto fechado há anos; ferrugem comendo o portão caído na casa abandonada; esqueleto de folha devorada na terra: tudo instantâneos de mim. Filme projetado na minha cabeça, cada fotograma é uma imagem do que realmente sou, para me provar não ser único; para me mostrar perecível, composto orgânico supostamente pensante. Adubo. Conjunto de reações bioquímicas que dão forma à flor e nenhuma à lama. Transitoriedade. E o mundo não é o que eu penso, porque já me esquivo do pensamento. Meus olhos ardem, pai, e eu não tenho nada de meu que não a dor, o cansaço, a tristeza, e o meu permanente sorriso matinal para os dias que vêm. Já não tenho medo de qualquer coisa, só da morte, por ser o contrário de estar vivo. Por me lembrar uma agonia e uma dor maiores do que se pode suportar. E eu suporto mal a dor, pai. Mas não choro, e meus olhos ardem. Então faço chover ficticiamente, para que eu possa dormir eternamente envolto em cobertores.

Flávio Moreira
12AGO92

Reencontros

"O tempo: esta substância da qual somos feitos."
J.L. Borges


Escorre um fio de tempo morno sobre as ondulações do ventre quando eu, aqui deitado e coberto com o escuro do quarto, remeto-me aos idos anos dos primeiros encontros. Tenho a febre alucinante escaldando meu corpo, frêmito gozo prazeiroso de ver de novo, em um novo momento, repetidos momentos incertos, imprecisos nesta minha memória devaneante, sempre viajada de emoções indistintas, embora imiscíveis. Transpiro, respirando cansado e sôfrego, como quem fez amor ininterruptas horas e extenua-se sobre a nudez do corpo que lhe veste este momento. E é esse corpo de recordações novas em novas situações que me fazem delirar, num desejo incontido de exacerbar o momento único do gôzo de estar vivo e feliz, para que toda a ordem universal se refaça a partir do princípio divino do indizível amor que brota desde a minha alma inteira; atravessando a minha pele, a tua pele, a pele do outro; penetrando sempre e fundo a tua alma, a alma do outro, a alma-pele do mundo, de tudo aquilo que existe antes e depois do clímax do gôzo de Deus feito nosso gôzo no instante em que nos vemos. Sorvo, ávido, o inebriante olor do corpo suado do êxtase eterno de saber ser imortal esta ternura imensa que nos une. Meu corpo é uma primavera de acontecimentos e meu quarto não é mais um quarto, mas o imaterial espaço onde tudo nasce, cresce e a tudo fecunda. O sêmen de Deus banha minha vida e abre as portas de todas as sensações, as belas e as más, que podemos viver no período de uma eternidade, transformando sempre as coisas desde o início, no ciclo-cio dor-prazer-torpor-crescer-dor-nascer-viver-morrer-dor-prazer-torpor (ad infinitum). Infinitamente porque cada vez é a mesma, mas diferente. Cada vez é sempre, porém única. Me desvencilho da malha convencional do tempo, este mesmo tempo morno que escorre sensual sobre meu ventre molhado de prazer divino, quando eu, deitado no meu quarto, estou nú diante da vida que tenho e que quero, agora, partilhar contigo neste ápice do novo reencontro, que repetiremos sempre e sempre, porque assim nos cabe; e assim propagaremos toda a energia pulsando dentro de nós, para que tudo se destrua e se refaça no incêndio maravilhoso do momento em que nos amamos inteiros e verdadeiros. Resgatamos e devolvemos à vida todas as emoções colhidas nos milênios de vivências. Neste instante em que nos vemos-amamos, eu te entrego meu coração, que já não bate mais no meu peito porque já não cabe nele o amor que sinto.

Flávio Moreira
14OUT92
17:25h

Sismos

Eu deveria começar este texto falando de alguma coisa, qualquer coisa, só para saber até onde conseguiria chegar andando neste vazio de idéias que agora me ocorre. Gostaria de poder expressar através de um meio de comunicação inteligível o que de mais profundo e sísmico acontece no meu interior. Se falo interior, sem determinar exatamente que ponto difuso é este dentro do meu corpo, falo justamente por não saber se o que sinto vem do coração, do cérebro, da alma ou de qualquer outro lugar que possa gerar em um ser humano a avalanche de sensações e emoções que percebo em mim. E, também, se digo sísmico, o digo porque sinto que todo esse volume de sentimento surge de forma avassaladora, como se a terra novamente revolvesse suas entranhas, para acomodar-se dentro de suas transformações geológicas. Sinto-me como a terra: movimentação imprecisa das placas tectônicas do meu íntimo, que fazem com que todo conjunto do que sou novamente se transforme e se acomode dentro de todas as perspectivas que surgem destas transformações. Como a terra, o que sou não julga maniqueistamente essas modificações. Sinto-as, apenas. Não há, dentro delas, qualquer coisa que possa ser qualificada como boa ou ruim. São nuances, variações de um mesmo tema: o ser que sou e que se forma e que caminha, ainda que vacilante, em direção ao conhecimento de si mesmo. Pode parecer simplório ou piegas dito deste jeito, mas acho que esta maneira simples de dizê-lo é a mais verdadeira, porque não necessita de fantasias filosóficas ou sutilezas literatas-acadêmicas para existir. Dispo-me das fantasias para alcançar o mais interno em mim. Então me abro para tudo o que está aqui dentro e que eu ainda não sei o que é, nem de onde vem (creio não ser importante saber o que não é essencial). Por ignorância tenho a sede desesperada de entender tudo através da racionalidade das palavras, onde busco recursos semânticos que considere suficientes para exprimir tudo. Mas o tudo que sinto se mostra cada vez menos traduzível. Fôra eu um contador de estórias e talvez pudesse inventar fábulas que descrevessem tudo. Mas eu estaria vestindo fantasias para explicar o que já não carece de ser explicado, porque se deve apenas sentir. Perdoa-me se misturo as idéias, que me fluem de maneira pouco ordenada. É que é tanto o que eu queria dizer e tão limitada a minha capacidade de fazê-lo que eu não vejo outra alternativa: neste momento me abro para que você leia em mim o que sinto. E o que sinto está dentro do que sou e o que sou está dentro deste corpo. Assim, para você me conhecer, me desvencilho do medo de me dar e me ofereço inteiro a você. Porque já não posso mais ser pedaço, dou ao mundo o que sou.

Flávio Moreira
28OUT92
21:50h

Negações

O mundo não é mais o mundo que eu conheci. O nada essencial deixou de existir. Vivemos tudo e não conseguimos entender o volume que esse tudo representa. Sufocamos. Corremos o risco de morrer de overdose: de informação, de angústia, de abandono, de desolação, de incompreensão, de desamor, de amor, de tesão, de vontade, de emoção, de racionalidade. É como se tivessem apertado o botão de avanço rápido da nossa vida e não tivéssemos mais tempo para viver. Passamos, e rapidamente, pela nossa história, que toca de leve a história de outros. Movem-se as coisas mais rápido do que podemos acompanhar. Nosso arquivo de subliminaridades pode não suportar tanto. Não vemos, não sentimos, não falamos, não tocamos, não amamos, não odiamos, não fazemos nada com tempo suficiente para compreendermos nossa própria transitoriedade dentro dos acontecimentos. Fomos atirados no vórtex do inexorável em nossas vidas, sem ter tempo para amar e viver o amor, para que ele nos dê prazer; sem tempo de odiar e entender as motivações do ódio. Não questionamos. Mergulhamos em vinte horas de trabalho diárias, nas mais diversas atividades, porque não podemos nos dar tempo para pensar nosso papel na vida do outro, já que não tomamos conhecimento do que é a nossa própria vida. Não pensamos; não verbalizamos. Gaguejamos. esquecemos as palavras que mais usávamos no tempo dos diálogos, quando, além de palavras, trocávamos vivências, emoções, idéias, vida. Ficamos parvos diante do grandioso que criamos e não entendemos a utilidade do que foi criado. Perdemos a capacidade de expressar até mesmo as nossas mais simples idéias, nossos mais perfeitos sentimentos. Nos envergonhamos das declarações despudoradamente limpas das nossas emoções mais básicas. Estou cansado de deuses. Sempre inatingíveis, impassíveis, megalômanos, voltados única e exclusivamente para sua própria ilusão de felicidade narcisa. Não peço nada a ninguém, porque estou tão mergulhado nisso quanto qualquer um. E sei que à minha revolta, quase pueril, não será dada qualquer importância, nem mesmo a mínima que ela mereça. Não há do que nos envergonharmos. Afinal de contas somos todos muito sujos mesmo, num momento ou outro de nossas vidas (quando não, em todos os momentos dela). Sei que estou sendo excessivamente sentimental, primário, básico mesmo. Mas é que emoção intelectualizada é foda de suportar, meu caro. E eu já estou muito machucado para ter que ficar me justificando a toda hora pelas minhas crises de humanidade. Só queria poder te tocar um pouco, sentir o calor da pele do teu rosto, assim, sem nenhuma intenção que não a do carinho por si mesmo. Mas tudo tem um preço, não é? E quem não quiser pagar está fora do jogo, é certo. Mas não ligue para o que eu falo. Não é por maldade, nem por raiva de ninguém. Não guardo rancor das gentes. Eu só queria poder estar assim próximo, como no tempo dos diálogos, trocando essa emoção, esse carinho que não está pedindo nada em troca, a não ser um pouco do que ele mesmo é. Não ligue para a minha tristeza. Ela passa, como todas as coisas. Isso tudo só aconteceu porque alguém esbarrou por acidente no botão de 'pause" e eu não pude continuar correndo sempre no mesmo lugar. Mas a roda-viva não pára e eu já estou indo de novo no fluxo veloz de todas as coisas. Talvez você esqueça de tudo isso no próximo segundo, quando entrar também na roda-viva. Não se preocupe: eu só espero ainda ter tempo de plantar uma flor no jardim da minha casa antes de tudo rodar de novo.

Flávio Moreira
17/05/93
19:30

O Mal, o Belo e o Poder

Não é o mal em mim o que mais me desgasta e trucida. É o amargo do viver cada dia lutando contra monstros quixotescos que me põe cada vez mais longe da tranqüilidade de que preciso. Extenuo, a mim e a outrem. Tenho raiva de não poder ser campesino, placidamente observando campos verdes e não tendo por contendores mais do que as intempéries da grande Mãe. Quero os ritos simples de culto à harmonia, ao belo, ao natural, ao divino em cada um de nós, caminhantes cegos, perdidos, humanas máquinas desorientadas. Não há um caminho único. Não há certezas absolutas (hoje sei que nem mesmo a da morte). Não há verdades perfeitas (o que pode ser tomado como exemplo do perfeito?). Sei do mal da humanidade, que é o meu próprio, mas também sei do seu belo. Creio na doçura possível atrás de cada punhalada diária. Entendo minha limitação de não ser limitado e de poder escolher, e de poder escolher errado ou certo, sem estar muito seguro do que cabe nestes conceitos. Posso amar, ou não; posso ser amado sem poder proibir que os outros me amem, mas posso não me permitir receber o amor. Posso muitas coisas e isto, acredite, é mais limitante do que estar preso entre quatro paredes. Porque posso ser livre entre quatro paredes enquanto for possível enxergar, ouvir, sentir cheiros e gostos, enquanto for possível pensar. Enquanto puder . . . e o poder tantas coisas assusta, corrompe, emburrece. E isto é sábio, porque é possível. Porque eu existo na sua imaginação; porque você me vê, me ouve e, quando eu permito, até me toca. E você está presente na minha imaginação, porque eu, em minha egoísta e pretensiosa omnisciência, deixo que você exista ali. Mas tudo é só uma face, uma nuance de cor, uma variação de padrão. Enquanto eu falo pelo meu pensamento você está fazendo outras coisas, falando outras palavras, pensando outras idéias e enlouquecendo tanto quanto eu, mas do seu jeito. Você está amando, se deixando ou não ser amado, vendo, sentindo cheiros e gostos, ouvindo, tocando. Só que do seu jeito. Em todas estas ações você é igual a mim e, por esta semelhança, eu te amo. Em todas estas ações você é diferente de mim e, por esta diferença, eu te amo. E eu também acredito que estou, neste momento, tocando em você, porque você me toca e eu sinto o mal e o belo de você em mim. E você sente o mal e o belo de mim em você. Então não é o mal em mim que me desgasta e trucida: é o não sentirmos o belo em nós mutuamente e a todo instante que me afasta da tranqüilidade que preciso. Para recuperar a lucidez . . . ou para perdê-la de vez.

Flávio Moreira
07/01/94
19:17h

Prelúdio e Fuga

"Mas eu nem sempre quero ser feliz
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para poder ser natural..."
(FP - Alberto Caeiro)

Talvez eu devesse estar alegre. Talvez. Não consigo ter certeza. É como se o mundo à minha volta fosse uma interrogação. Ando, como sempre, triste. É o meu jeito de ser eu mesmo. Vivo minha melancolia intensamente, como se esse fosse um jeito mais meu de ser feliz. Gostaria de poder dormir, mas existe sempre o mesmo diferente filme projetado diante dos meus olhos, estejam eles fechados ou abertos. É um filme sem histórias, sem enredo, roteiro, apenas a sucessão infinita de imagens, como comerciais curtos em velocidade rápida, "zappeadas" constantemente, saturando de forma subliminar meu raciocínio lógico. Por isso já não escrevo coerentemente: porque já não penso coerentemente. Meu pensamento é um olho de libélula voltado a todas as direções, uma metralhadora disparando contra os mosquitos gigantes que me assustam, zumbindo imagens passantes, filmes mínimos: avião passando, trem passando, carro passando, tempo passando, vida passando e eu atingindo a velocidade da luz. Minha massa entra em colapso sobre si mesma no horizonte de eventos, atingindo o orgasmo universal-primordial onde não sinto mais nada. Fico a adensar-me cada vez mais, fugindo do abismo pensando em qualquer lugar no momento relativo exato. Equação da vida enfim decifrada: a anti-vida. O morrer mil vezes ao infinito, perder-me vale, abismo, falésias e o mar dos sonhos batendo nas encostas da mente. O delírio triste e melancólico de minha doce alma arrebatada do corpo pela luz fria do luar, que é a luz quente do sol refletida na lua. Onde piso sozinho eternamente no chão do deserto que os homens chamam de mar... Tranqüilidade, ou algo assim. Algo que lembra paz absoluta, viver absoluto, morrer absoluto, um hibernar qualquer no colo de Deus. Esse pai que me lançou semente no ventre da terra-mãe, parideira de ancas largas e fartas tetas de loba. Nasci mirrado e seco como planta de caatinga, que já nasce morta e amarga. Mas amargura não era para mim. Era doce o que eu queria ser, porque era doce estar dentro da Deusa-Mãe, recebendo vida. Essa mesma vida que bebo hoje, tentando descobrir doçuras outras para embelezar minhas asas de anjo caído. Asas etéreas de anjo que deseja outros paraísos para existir em paz. Asas etéreas de anjo que deseja ser anjo etéreo, sem maldade, sem ser anjo dos homens. Anjo que ouve os trovões das tempestades solares. Anjo físico nuclear, astrofísico. Bestafísico. Anjo com delírio de gente, de humano triste, melancólico, bucólico. Delírio, que já foi deleite, mas que hoje só sonha. Grande Mãe, perdoa o filho lançado contra tua vontade em teu ventre, deleite de Deus. Vivo de consumir substâncias de estrelas mortas a milhões de anos. Minha vida, minha parca, mínima vida. Pequena e doce vida de menino triste, solitário, caminhante, delirante, adulada pela loucura. Porque só cresci assim por fora, corpo físico mesmo, amontoado de átomos, moléculas, células, órgãos, corpos, estrelas, galáxias... Um bicho de fome voraz. Fome de vida, fome de delicadeza em cada gesto, de suavidade em cada som, fome de gente viva. Um contador de histórias, mil e uma noites da mesma história de outros diferentes. Todos dançando a música dos sonhos de todos os compositores. Acordes únicos, ouvidos uma vez a cada nascimento do universo. E eu sou um ser que anda de ponta cabeça, para que meus pés pensem poder chegar onde meus olhos cegos o levam. Olhos da mente, que mente o que vê. E sonho o que penso, penso o que vejo e vejo meu delírio. Porque o delírio só existe se você estiver acordado: se estiver dormindo é sonho...


Flávio Moreira
25/01/94
1:50h