27 de abr. de 2009

Sobre o último poema

Escrevi, hoje, meu primeiro texto após mais de um ano de total inatividade literária e o primeiro poema sete anos desde o último - "Noite de Inverno"- que, como este - "Declaração à posteridade" - trouxe-me o espanto de ter nascido pronto, de uma vez, sem alterações de conteúdo ou correções que não as gramaticais. É um texto pretensioso, quase arrogante, visto que olha para minha obra, se assim eu puder chamá-la, como se fosse vasta. Esta é a visão que se pode ter dele hoje, quando situado dentro da minha pequena produção. Por outro lado há um certo tom profético no seu conteúdo, pois busca evidenciar o trabalho completo de uma vida - "leiam-me póstumo, quando todo vivido" - onde supõe-se que o escritor (eu, no caso) continuou produzindo até alcançar a qualidade e o volume necessários a uma obra que possa assim ser chamada. Ou seja, resta-me a responsabilidade de persistir na lida pelo tempo que me resta para viver.

Assim, tomo este poema como ponto de partida para uma nova investida produtiva, cuidando para manter-me assíduo no labor das letras. Devo por de lado meu acanhamento retórico e, mais do que isso, minha incomensurável preguiça para o ato físico da escrita, para poder, através da prática, expor minhas visões de mundo, seja para pura apreciação estética, seja para avaliação crítica das idéias, pois que é desta troca que faz com o meio em que vive que o homem consegue os subsídios para sua evolução. Pego, como ilustração, a boa lembrança do dito de meu amigo do coração e excelente escritor Roger Trimer, que explica que a verbalização do pensamento torna-o mais fácil de ser avaliado e, consequentemente, situado dentro dos diversos contextos em que se exprime.

Resta, então, o desafio da continuidade e o compromisso pessoal com o exercício intenso deste desenvolvimento. É claro, faltam-me os estudos necessários, além da própria experiência, para a formação do estilo, para a apreciação das filigranas, das sutilezas e falta, também, adquirir o ferramental adequado ao burilamento das idéias, além do senso crítico e estético para a análise e compreensão do lido e do escrito. Pois o escritor/leitor bebe de várias fontes antes de encontrar seu próprio caminho e, mesmo encontrando-o, retorna a essas fontes como referência e elemento de comparação, como a bússola confirma ao experiente capitão sua leitura das estrelas.

Faz-se imperioso, neste instante, destacar a necessidade orgânica de transpor-me para o papel. Sei da necessidade de continuar neste caminho onde, se não encontrar a satisfação profissional, terei como alento o prazer de fazer algo que efetivamente afina-se com meu espírito. Hei de buscar os meios para tornar meu escrever mais prazeroso e rico, pois muitas são as possibilidades - conto, poema, romance, prosa poética.

Quero produzir, em qualidade e em quantidade, pois sinto que minhas energias internas me conduzem para este caminho. Ato contínuo, começo por esta pequena, pretensiosa e, por que não, eloqüente apresentação deste nada modesto poema, lançando luz sobre um momento importante do meu processo criativo, agora retornando de maneira mais consolidada e objetiva.

Fica também e principalmente, nesta apresentação, uma deliciosa ternura e gratidão ao carinho e incentivo de amigos maravilhosos; amigos desde sempre que, em diferentes momentos, apoiam e apostam na minha capacidade.

Flávio Moreira
18/02/9523:24h

Pequena oração capenga

Senhor,
Perdôa-me por minha pouca fé,
Por minha falta de carinho com meus amigos
E por minha falta de carinho comigo mesmo.
Obrigado por todas as coisas boas que me mostras
Em meio a todas as vicissitudes.
Obrigado pelas lições de cada pequeno
Acontecimento do dia a dia e que,
Tantas vezes, me passam despercebidos.
Obrigado pelo amor das pessoas que me trouxeram ao mundo;
Pelo amor das pessoas que me encontraram aqui;
Pelo amor das pessoas que eu encontrei aqui;
Pelo amor das pessoas que eu ainda encontrarei
E fazei com que, tanto quanto merecedor desse amor,
Eu possa amá-las tão honesta, profunda e sinceramente
Quanto elas me amam.
Obrigado, Senhor, pela grande vida que me deu e que,
Ingrato e injusto, às vezes penso tão pouca


Flávio Moreira
25/03/95
20:22h

Uma manhã

Amanheço.
Desperto dentro de outro dia
Sem qualquer memória do ontem
Seja tristeza ou alegria.
Ao tempo sucede o próprio tempo:
Crepúsculo, aurora, ocaso...
À minha mesa sentado, observo sua passagem:
Movimento lento de meu olhar vago.
Sou filho do acaso, fruto do momento.
Quando vago o tempo observa minha passagem:
Movimento árduo de meu corpo arcado.
Amanheço sem qualquer memória
Que não a do próprio tempo em mim marcado,
Notas ao pé da página de meu viver já antigo.
Tenho por companheiro o existir comigo
E junto a ele desperto no dia por ser vivido.
Ações, palavras, silêncios o irão compor
Para se decompor depois, sedimentando sonhos
Sementes lançadas ao acaso nos campos da mente...
Amanheço.
Desperto dentro de outro dia
Sem qualquer memória do hoje
Seja tristeza ou alegria

01/03/95
07:58

Ares dos dias

Não é um dia como outro qualquer
(Um dia nunca é como o outro)
Retornar ao mundo real e palpável
Após o arremessamento do corpo
No incorpóreo das alternativas vivências
Traz o atordoamento da mente
E o cansaço físico inevitável
É preciso tocar de leve nos fios que conduzem
De novo ao viver regularmente:
Uma voz amiga, um ambiente amistoso
Uma refeição cotidiana ainda que feita na rua
A caminhada pela vizinhança familiar
Sem estranhamento
O ir ao cinema e sentar-se calmo
Aguardando a projeção
Encontrar rostos conhecidos
Manter diálogos singelos
Os dias jamais são comuns
E este não é um dia como outro qualquer
Como eu não sou aquele que era
Ou sou o mesmo acrescido do contentamento natural
De apreender o dia de hoje e seus ensinamentos
Vivo da calma de estar respirando
Estátua aos poucos (re)aprendendo os sentidos
Lacunas, mergulhos, disparos e movimentos lentos
Corpo e mente desintegrando-se, re-integrando-se
Expansão e colapso sobre si mesmo
Sismo de vivências na sede dos dias
Bebidos ora com avidez, ora pausadamente
A degustar as horas
Vendo os dias aos poucos modificando-se
Em espetáculos ímpares que parecem os mesmos
(Descubro pequenas marcas em meu rosto)
Ah, que seja doce o despertar de hoje...

05/06/95
18:00

A quem interessar possa...

De meu mundo quis fazer um poema:
Faltaram-me as palavras
Ou faltou-me o mundo?
Oceanos represados no contexto da existência
Rompem caminhos buscando seu fluxo,
Remanso incerto a ser formado.
Mas as palavras, estas, indecisas, imprecisas,
Não lhe foram fiéis em sentido,
Nem lhe deram a dimensão do transbordo.
De meu mundo meu poema perfeito
Cria-se no laborioso do tempo a moldar-me.
Leiam-me póstumo, quando todo vivido,
E não mais traiçoeiras palavras lerão,
Apenas completo sentido.

18/02/95
20:47h

Fragmento

Quando me tocas sua mão de pluma
Sou dócil
Quando me pesa sua mão de ferro
Sou doce

Anotado em um pedaço de papel qualquer, sem data

26 de abr. de 2009

Amanhecendo


Acordo.
O relógio ainda não.
Esqueço a hora, me encolho.
Revolvo a mente, os sonhos
E sonho de novo
Entre os dez ou quinze minutos
Que me separam da realidade.
05/09/1984

Imagem: Henri Rivière

Ao Mar (Ode Mínima)

Ao mar o mundo dos vivos, que se dilui em veios exíguos de vidas egressas...
Voltar à época das imemorialidades e recontar os grãos da areia do tempo
Devolvendo ao mar as marcas e as lágrimas.
Que seja doce o reviver a vida, ainda que ela se desfaça em mares de existir.
Ao mar a angústia do que virá, pois não pertence à areia a onda por bater,
Apenas a espuma que borbulhou há pouco.
Não reste dor na memória que não recupere a alegria.
Eternamente vivam os amores na continuidade tátil do afeto.
Ao mar os ódios e os rancores, e todas as raivas e sentimentos amargos,
Para que seu ciclo infinito os transforme e devolva o contentamento da primavera
Esverdeada e florida sob as gotas de chuva.
Sábio o mar, fluxo e refluxo de emoções e almas...
Areias, encostas, rochedos, falésias - superação e conquista, conformação e apaziguamento.
Salgado o mar onde se diluem dores para que se façam doces as gotas de vida.
Afetuoso e intempestivo mar, canção e choro, fúria e riso...
Sublime e harmoniosa composição de vida revivida, encantada de silêncios e sussurros.
Ao mundo dos vivos o mar e suas vidas transformadas,
Ungidas no maravilhamento dos dias a recuperar o curso de seus veios

Flávio Moreira
12/05/95
13:00h

Ilustração: Henri Rivière - Aspects de La Nature

Noite de Inverno


Não há espelhos em meu quarto,
Apenas a alvura das geleiras.
Tenho as mãos úmidas e frias
- Inverno das sensações -
E o coração em estado letárgico
- Inverno das emoções -
No branco glacial das paredes que me cercam
Me inverto; me encolho, me encosto no canto
E escôo por entre o emaranhado de roupas que me cobrem
Me esquivo das gotas de tempo que me torturam,
À hora morta da noite invernal
Trago os lábios secos e quebradiços
- Inverno das palavras -
Assim como a pele perdeu seu viço e jaz,
Uma cobertura tosca, sobre minha alma
Já não tenho corpo e minhas mãos em garra
Abraçam inutilmente meus pés,
Tentando segurar o fio último de realidade
Flutuo no espaço vazio da minha ausência de afeto
- Inverno das relações -
Estou a estrela distante morta de saudade
Azulada, minha matéria explode
Me concentro energia dispersa
- Inverno do Universo -
Todo universo do caos do espaço em que me incluo
Todo caos do universo incluso em mim
Perco minha alma no mar da eternidade
Pelas paredes brancas, imaculadas,
Sequer uma gota de sangue
Estou indelevelmente impresso na inexistência
- Inverno da realidade -

- Na perdida retórica das estações meu espírito aguarda a primavera para florescer -

Flávio Moreira
14JUL88

Que haja sempre uma ponte transpondo obstáculos...


Foto: Pisgah Covered Bridge - Randolph County, NC, EUA