7 de fev de 2010

Abandono

(da série de textos perdidos)

Todos os dias, sentado, parado, calado
Espero o abraço, a chegada de alguém.
Cansado, ainda calado, me esquivo do soco.
Amarrado, enforcado, a resposta largada...
Pés e mãos atados diante dos fatos.
Observador, sou observado, perscrutado, analisado...
Ave louca, na grade da prisão, me debato.
Preso, não canto!
Solto, fazem alvo de meu coração.
Penugem dourada, feneço, esqueço os martírios
- Inesquecíveis algozes.
Matéria pesada, ferida, inerte, atirada ao chão,
Não consegue se erguer.
Pisoteada, marcada, cuspida - tenho asas partidas
E a voz travada na garganta
- Canora ave que não canta.
E esplendor do vôo, o ouro das asas
Me foram roubados;
O doce da voz o fel dos homens amargou.
Corpo ferido, peito silenciado, coração lacerado...
O que me resta?
Não sei...
A primavera chegou e só o espírito paira, agora,
Sobre o que já fui um dia.
Apenas com ele vôo, apenas ele existe.
A matéria, a caixa, essa jaz destruída, abandonada...
O corpo aniquilado repousa, imolação feita de chamas
Para que, talvez, das cinzas, surja o corpo novo do novo ser.
A busca (inútil?) de um significado para essa existência...
Durmo em paz,
       enfim.

(18/10/1988, 17:21)

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