2 de set. de 2009

Soneto para JGR

Para os dias de tristeza e agonia
Inventei eu uma nova liturgia:
Quando a dor de estar na vida se avoluma
E a alma, como se furada de verruma,

Demanda ir-se apartando do mundo
Indo ter-se encolhida no profundo,
Obscuro e temeroso esquecimento,
Por agruras de desditoso momento,

Ponho medos e queixumes à deriva
Colho flores de poesia na palavra
Junto notas de sua lira preciosa

E agradeço em alegre contrição
Pelo bálsamo de sua criação
A meu doce São João Guimarães Rosa

13h51

28 de ago. de 2009

Quase-haikai paulistano

São Paulo, seis da tarde
a indústria automobilística
vai cobrir o Tietê

sobre uma frase de Sandrinha

Haikai II

na relva orvalhada
- degelo de primavera -
meu corpo desperta

Quase-haikai I

beija-flor parado no ar
pausa de semifusa
na brevidade da vida

Haikai

chá no fim do inverno
flores despontam nos galhos
meus olhos sorriem

25 de ago. de 2009

Para os poetas românticos

Gosto dos poetas românticos (não de estilo, mas de coração) porque escrevem derramando sua alma em cada verso, esbanjando floreios em cada rima, algumas tolas, outras sublimes.

Gosto desses poetas porque não têm medo do ridículo pessoano das cartas de amor rasgado, que desavergonhadamente bradam seus sentimentos voláteis em palavras perenes.

Gosto desses poetas que não sabem o que fazem quando dizem o que sentem em um mundo cada vez mais repleto de máscaras de seriedade e respeito.

Gosto desses poetas que ousam ser demasiadamente humanos e egoístas em suas emoções hiperbolicamente gritadas aos quatro ventos.

Gosto desses poetas que sofrem de amor e derramam sua dor em cada verso como se esse, exatamente esse, fosse o último que escreverão, ainda que reincidam nos amores fugidios guardados em futuros insuspeitos.

Gosto desses poetas que sonham rimas de flores e amores, de desejos e beijos, de paixões e aflições, de mortes diuturnas pelo ser amado.

Esses poetas fazem o verão dos sentimentos plenos e vastos que nossa intelectualidade servil e técnica já não admite. Eles nos fazem enxergar onde deixamos de trilhar o caminho dos sonhos e passamos a enterrar a cabeça no chão da razão.

Nós passaremos.

Eles, quintanamente, passarinhos.

25/8/2009 - 14h50

24 de ago. de 2009

Enigma

Não vejo o arco de luz no céu
Somente as sombras e a luz baça
Não vejo a lua e seu brilho pálido
Como pálidas estão minhas faces

Sob a cálida luz do entardecer
Vejo no ocaso de meu rosto
Verdades escritas a fogo brando e constante
Como marcas de arame farpado
Nas estacas das cercas muito antigas

Verdades escritas em uma língua
Há muito esquecida e soterrada
Sob séculos de pó e tristezas
Repisadas ao infinito por pés
De caminhantes solitários

Vejo partidas de meus sentimentos
Olvidados em olhos
Nos quais não me reconheço
Em amores que se foram
Sem nunca terem sido

Vejo augúrios e presságios
Que a sibila, muda, desconhece
E que o vidente, cego, mal vislumbra

São páginas escritas
Em carcomidos alfarrábios
Com letras gastas em páginas
Amareladas de tempo e lágrimas

São traços apagados de mãos
Usadas e abusadas pela vida
São olhos opacos por eras
São músculos exaustos
De um coração que não bate - sussurra...

E o que dizem, não entendo:
São o mistério sem pistas
São os sabores ocultos
São as cores não vistas
São os sons inauditos
São as texturas impalpáveis
São os odores indistintos
São o sangue, a lágrima
O suor, a saliva, o sêmen
A virilidade do homem,
A maciez da mulher,
O seio terno da fêmea,
O peito rijo do macho,
O vigor da juventude esquecida...

São um fantasma
De mim em mim e fora de mim

São as vozes do fim.

10 de ago. de 2009

Ar


Arde o peito quando o ar falta
E a dor incendeia, se irradia
E cada músculo queima em agonia
Respirar... sorver o ar com gana
E prosseguir
Como se a sobrevivência do mundo
Dependesse unicamente
Desse gesto desesperado

Mas é preciso pensar, juntar
Todos esses membros desconexos
Mortos, pela fadiga entorpecidos
Que se movem por si, sem rumo
Donos cada um de um destino

Cada espasmo é um grito em silêncio
Cada músculo retesado é um rito
De passagem para um corpo esquecido
Que se quer perder nesse meio denso
Nessa atmosfera irrespirável, sólida

Ah, perder-se agora e abandonar-se
À derrota fácil da inércia
Cessar todo movimento, toda vida
Precipitar-se sólido, largar-se ao fundo
E olhar o mundo pelo filtro claro
Dessa massa informe que o circunda

Cores, brilhos, luzes que vão se apagando
Cessa o hálito, ouve-se o baque surdo
E o mundo enfim escurece em silêncio
Mentira... os sons são ganchos ocultos
Que arrancam a mente do torpor, do cansaço
Do corpo que não mais suporta a dor

Os pulmões urram puxando em desespero
Um ar que não parece nunca ser bastante
Mas que bastar precisa para seguir adiante
Vencer o obstáculo espesso, a resistência fria
Buscar no ventre, nas entranhas, na carne mais dura
A vontade de sair vitorioso dessa luta

Hoje não deu, não havia ar e energia para a refrega
Amanhã, quem sabe... amanhã
Amanhã nos encontramos de novo
Para mais um embate em que a dor, a extenuação, o estupor
Dirão no fim quem, de fato, venceu: a piscina ou eu.

Fragmento II


Na câmara digital da minha vida
Vejo imagens em alta desilusão.

8 de ago. de 2009

Expressão e conteúdo



Se pela palavra foi dada à luz a existência
Quero aquela que, uma vez pronunciada,
Conjure sentimentos e emoções.
Gestos, apenas, já não bastam - são mudos!
E em seu silêncio, soturno, duvido:
Existirão, de fato? Como poderiam,
Já que não-ditos inconsumam-se?
Quero o grito que percorra o arco da noite
E ao raiar do dia, finalmente, proclame: eu sinto!