12 de mai. de 2009

Fragmento (idéia para um poema)

Deixar correr o mundo, a vida
Para fora, para longe, para o nada
Vazar veias e olhos e definhar
Esgarçar, desaparecer
Lentamente
Inexoravelmente
Usando todas as palavras grandes
Que existem no dicionário

30 de abr. de 2009

O novo...

E então a palavra se refaz.
Refaz-se o coração.
E aqui começa o novo, a nova década, os novos escritos.
Que venham.
Estou pronto!

Sina

Um olho aberto
Um outro fechado
Um todo luz
Um todo gruta

Aquele se fecha
Este se abre
Aquele escurece
Este se aquece

Nunca se veem
Tocam-se nunca
Ou quase, quando
De leve, se beijam

Cerúleo e carmim
Tocam sinos
Amanhece

Carmim e cerúleo
Cantam pássaros
Anoitece

E entre eles,
Prata sobre ouro
Ouro sobre prata,
Caminho

30/04/2009
23:00

Desenho: Flávio Moreira - 01/02/1983

28 de abr. de 2009

Sobre honestidade e censura

Quando comecei esta página pensei em colocar aqui todos os textos que escrevi e que, por alguma razão guardei. Só que eu o fiz de maneira aleatória. A maioria dos textos não está na ordem em que foram escritos. Nem estavam todos, até hoje. E por que não estavam todos? Porque não conseguia resistir à auto-censura. Quando leio as coisas que tenho guardadas sempre as vejo como arrebatadas demais, apaixonadas demais, tolas demais, exageradas demais. Mas será que tenho o direito de, uma vez tendo decidido colocar essa fase de escrita em exposição, negar agora a verdade que ela carrega? Que eu era imaturo demais no labor das letras, que eu não tinha limites para os sentimentos que esses escritos carregavam, que eu os achava melhores do que de fato são. Mas seriam eles menos uma parte de mim só porque agora olho para eles com o olhar de quem viveu um pouco mais, estudou um pouco mais, acomodou paixões, sedimentou pensares, compreendeu sofrimentos e angústias da juventude que não poderiam ser compreendidos naquele momento em que neles esteve mergulhado? Creio que não. Tenho que admitir que não.

Talvez pouco do que sou hoje existiria não fossem todas aquelas emoções desmedidas, todos aqueles pensamentos que me fizeram um prolixo misturador de palavras. Porque estando dentro do turbilhão, não havia como firmar pé, por-se ereto e caminhar firme, com todas as certezas nas mãos. E, no entanto, não é assim que caminhamos quando somos jovens? Com todas as angustiantes certezas nas mãos, mas que esvaem-se como poeira entre os dedos? Nada fica, a não ser as angústias. Que também se aquietam, se amalgamam e então se mostram no seu devido tamanho.

Então, por que julgar esses instantâneos de juventude? Não seria mais honesto deixá-los assim, à mostra, porque descrevem uma parte da verdade do que eu sou? Não somos a soma de todas as nossas experiências? Por que envergonhar-se delas? Entretanto, é isso que me vem agora, como se eu quisesse que aquele garoto de 20 anos soubesse o que somente mais 20 anos puderam ensinar. Não é muito justo. Aquele era outro, ainda que fosse o mesmo que eu sou hoje.

Engraçado: não me casei, não tive filhos, e neste exato instante faço comigo mesmo o que todos os pais juram que jamais farão com seus filhos - repito os mesmos erros e cobro de mim mesmo recuado em 20 anos a mesma 'maturidade' que só agora vislumbro (a conquista está ainda longe - o que há é ainda apenas um vislumbre). Aliás, alguém aí sabe me dizer o que é 'maturidade'? Quando descobrirem, por favor, me expliquem.

Não, não posso ser pai de mim mesmo. É preciso deixar o filho crescer, quebrar a cabeça, dar murros em ponta de faca. Até porque - ora vejam! - não sou um bom exemplo de pai: ainda assisto desenhos, leio gibis, compro carrinhos (que adultamente chamo de 'filmes de animação', 'graphic novels' e 'miniaturas em escala', respectivamente). Cobro de mim jovem uma postura adulta e hoje sou ainda uma risível criança por dentro!

Tudo isso para tentar amassar coragem bastante para publicar aqui esses disparates juvenis. Ou, mais, para justificá-los. Entre a honestidade e a censura, e em favor do respeito à liberdade de cada um, melhor a honestidade.

Teu Sangue

I
Estou correndo
Estou correndo
Estou morrendo
Estou tremendo

Estou aqui
Estou jorrando
Eu sou teu sangue
Coagulando

Estou crescendo
Estou secando
E tu estás
Agonizando

Meu irmão vidro
Te cortou
Mas o teu grito
Não ecoou

Mas você chora
E eu por vingança
Fico a sorrir
Da tua esperança

II
Estou sangrando
Estou secando
Eu sou teu sangue
Agonizando

Teu sofrimento
Parte de mim
E do amigo vidro
Que é tão ruim

Injustiçado
Por tua raça
Amargurado
Por tua desgraça

Eu sou teu sangue
Estou morrendo
E aquele tempo
Que já passou
Passou depressa
Coagulou

Flávio Moreira
Setembro 1980

Resumo circense

O palhaço não faz mais graça.
O palhaço não ri mais.
O palhaço descobriu seus algozes
E os destruiu.
O palhaço está morto
No meio do picadeiro
Que ele mesmo construiu.


O palhaço não ri mais...

Flávio Moreira
19-20NOV84

Transcendente

Existo
Em algum lugar
Em algum tempo
Em algum espaço

Existo
Em qualquer lugar
Em qualquer tempo
Em qualquer espaço

Existo
Em todo lugar
Em todo tempo
Em todo espaço

Existo
Em nenhum lugar
Em nenhum tempo
Em nenhum espaço

Existo
E não importa
o lugar
o tempo
o espaço


Flávio Moreira
28DEZ83

Sem título

Quero deixar o tempo
Atravessar meu corpo
Para que eu me torne tão eterno
Quanto o haver estrelas

JAN 1986

Letargia

Durante o sonho
Desperto.
Em meio à realidade
Adormeço
Entre o sonho e a realidade
Existo

06JAN86

Memo

A lua
Leva,
Longe,
A lembrança
De liberdade.

19-20NOV84